Publiquei há algumas semanas um texto sobre os episódios recentes na orla. Aquele texto tratava do caso.
Este desce à raiz, que é onde a discussão fica difícil e onde quase ninguém quer ir.
Começo pelo que me incomoda. Toda vez que acontece alguma coisa grave na orla, eu já sei o que vou ler nos três dias seguintes. De um extremo vem o pedido de dureza: pena maior, operação mais frequente, menos limite ao que a polícia pode fazer. Do outro vem o pedido de garantias: controle da letalidade, fim da abordagem seletiva, política social. Cada um atribui ao outro a causa do problema. Na semana seguinte o assunto desaparece e retorna idêntico no próximo domingo de calor.
Isso se repete há trinta anos. É uma discussão sobre a cor do curativo, azul ou vermelho, enquanto ninguém o levanta para examinar o que está embaixo. E quem não está em nenhum dos dois extremos, que é a maioria das pessoas, assiste sem ter onde se apoiar.
Alguém vai perguntar o que um advogado que trabalha com turismo tem a dizer sobre criança, escola e polícia. Tem tudo a ver, e eu chego lá.
Antes, um dado. O Rio recebeu 1.211.748 turistas internacionais de janeiro a maio deste ano, contra 1.032.537 no mesmo período de 2025, alta de 17,4%. É o maior número já registrado para o período desde 2018. Os dados são da Polícia Federal, divulgados pelo Ministério do Turismo em parceria com a Embratur. O que ele prova é que demanda nunca foi o nosso gargalo. A cidade vende sozinha. O gargalo é saber se o modelo que sustenta esse crescimento aguenta o ciclo seguinte.
As duas coisas que ninguém diz na mesma frase
Milícias e facções controlam território, restringem a circulação dos moradores, recrutam adolescentes, cobram taxa de comerciante e praticam violência letal. Para o turismo isso não é abstração. É o quiosque que paga, é a van que só circula mediante autorização, é a razão pela qual determinados negócios não abrem em determinados endereços. Quem trabalha no setor sabe e raramente escreve a respeito.
Do outro lado, estudo de 2025 de Ignacio Cano e coautores, aplicado à rede municipal do Rio, encontrou queda mensurável de aprendizagem associada à exposição a tiroteios decorrentes de operações policiais. Na Maré, a Redes da Maré registrou 163 dias de aulas suspensas entre 2016 e 2025.
Adianto a objeção, porque é boa: de que adianta ter aula todo dia se a escola finge que ensina. De nada. Dia de aula é insumo, não resultado. Só que a rede do Rio consegue as duas coisas ao mesmo tempo, entregar pouco nos dias em que funciona e ainda perder dias por causa da política de segurança, e o estudo mede o segundo efeito controlando o primeiro, comparando escolas de perfil equivalente. Há também uma diferença que interessa a advogado: aula perdida por operação é evento datável e atribuível a conduta específica e evitável, ao passo que ensino ruim é falha difusa. A primeira gera pretensão, a segunda gera indignação. E as duas coisas são verdadeiras ao mesmo tempo. O debate não sai do lugar porque cada extremo adotou uma delas e passou trinta anos fingindo que a outra não existe.
A decisão do Supremo na ADPF 635, aliás, faz exatamente as duas coisas. Determinou câmeras corporais e protocolos para casos de morte decorrente de intervenção policial, e determinou também plano de retomada de territórios ocupados por organizações criminosas e inquérito da Polícia Federal sobre milícias, armas e lavagem. Quem a invoca por apenas uma das metades não está discordando de mim. Está descrevendo mal um documento público.
O curativo é necessário
Não proponho abrir mão de repressão. Ferida aberta se cobre. O que proponho é deixar de chamar o curativo de cura.
E aqui está o dado que desagrada aos dois extremos ao mesmo tempo. O que dissuade não é o tamanho da pena, é a probabilidade concreta de ser pego. A pesquisa sobre dissuasão converge nisso com bastante consistência: agravar penas produz efeito pequeno ou nulo, enquanto aumentar a chance de o autor ser identificado e responsabilizado produz efeito real.
O Brasil vem fazendo a metade errada há trinta anos. Elevou penas, criou regimes mais gravosos, ampliou hipóteses de prisão, e convive com índices de esclarecimento de homicídio que deixam a certeza próxima de zero em boa parte do território. Quem exige rigor e aceita esse índice está pedindo justamente a variável que não funciona.
Repressão eficaz tem nome e não é fotogênica: investigação, inteligência financeira, asfixia patrimonial das milícias, enfrentamento da lavagem.
O que eu levei anos para conseguir formular
Sempre sustentei que o problema de fundo é de formação. Que falta alguma coisa na criação, na escola, na transmissão de referências. Continuo sustentando, e isso não é conclusão de leitura. É o que se conclui depois de anos acompanhando processo, fazendo trabalho voluntário e estudando o tema in loco, vendo as mesmas histórias chegarem por caminhos diferentes.
O que me faltava era conseguir dizer por qual via a formação opera. Se fosse por transmissão de discurso, bastaria ensinar o certo e o problema estaria resolvido. Não está.
A resposta, que décadas de pesquisa criminológica vêm confirmando, é que as pessoas cumprem a lei sobretudo porque consideram a autoridade legítima, e não porque calculam risco de sanção. Formação não se transmite por sermão. Transmite-se por convivência, por exemplo e por coerência entre o que se prega e o que se pratica. Quem defende a importância da formação moral dentro de casa sempre soube disso. É o mesmo mecanismo, aplicado à autoridade em vez dos valores.
E começa em casa. A primeira autoridade que alguém conhece é a dos pais, e é ali que se aprende se autoridade é coisa que explica e escuta ou coisa que apenas se impõe. Depois vem a escola. A polícia não constrói essa orientação: confirma ou desmente o que já foi aprendido antes. Só que desmentido repetido ao longo de anos costuma vencer o que foi apenas dito.
A legitimidade também não se sustenta só pelo tratamento. Depende de entrega. Prisão que devolve a pessoa pior do que entrou, escola que aprova sem confirmar aprendizado, polícia que não esclarece homicídio, Judiciário que decide dez anos depois. Isso corrói autoridade tão rápido quanto o mau tratamento, e nenhuma cortesia compensa.
Chego ao ponto. Aos doze anos, esse menino está decidindo, sem saber que decide, a quem reconhece autoridade. Não é escolha declarada e não acontece num dia. É o acúmulo de quem explicou, quem escutou, quem cumpriu o que prometeu e quem tratou igual. Se o Estado perde essa disputa, o lugar não fica vago. É ocupado por quem oferece justamente o que faltou: previsibilidade, resolução de conflito, proteção. A um preço brutal, e ainda assim é ocupado.
E o efeito aparece em tudo, não só na investigação. Em quem se chama quando acontece um problema. Em qual regra se considera obrigatória quando ninguém está olhando. Em se vale a pena registrar ocorrência ou se é perda de tempo. Estamos financiando com o presente uma conta que vence daqui a quinze anos. Isso não é argumento contra a polícia, é argumento sobre o que faz a polícia funcionar.
O que dá para fazer
A ferida não está na população do território. Está na relação entre as instituições e as pessoas, e relação se corrige por conduta e por entrega, não por discurso.
A parte principal é a mais difícil e não tem atalho. Só que dizer que a prisão deve recuperar, que a escola deve ensinar e que a polícia deve ser eficaz não custa nada, porque ninguém discorda. Proposta com a qual todo mundo concorda não é proposta. Então proponho o que incomoda: números publicados.
Taxa de reincidência por unidade prisional e socioeducativa, divulgada anualmente. Resultado de aprendizagem aferido por escola, e não média de rede que esconde as piores. Taxa de esclarecimento de homicídio por batalhão, e não total de apreensões. Tempo médio de tramitação por vara. Nada disso depende de lei nova. Depende de decisão administrativa de publicar, e é justamente por isso que não se pública.
Enquanto o Estado não entregar aquilo para que existe, e enquanto não for possível verificar se entregou, ele não ganha disputa nenhuma por autoridade, e o território segue sendo regulado por quem estiver disposto a ocupá-lo.
Isso não é pauta de extremo nenhum. É a conta que os dois deveriam estar cobrando, e não cobram porque ela é cara, lenta e não rende manchete.
Enquanto isso, há o que custa quase nada. Registrar aula suspensa por operação com a mesma seriedade com que se registra apreensão. Medir periodicamente o quanto os moradores consideram legítimas as instituições, porque hoje se mede o que a política produz e não se mede o que ela destrói. E padronizar a abordagem de crianças e adolescentes: explicar o motivo, ouvir, tratar com respeito. Nada disso resolve o problema sozinho, e é melhor dizer logo. Só que é a diferença entre um encontro que confirma o que a criança aprendeu em casa e um que desmente, e essa diferença se acumula.
O Rio provou que sabe atrair. Falta provar que sabe sustentar.
Frederico Teixeira Leite é advogado no Rio de Janeiro.
